
Há décadas, o povo brasileiro vem perdendo, gota a gota, a crença na política e nas instituições. Aqueles poderes que foram desenhados pela constituição para administrar, proteger e julgar passaram, aos olhos da nação, a atuar como defensores quase exclusivos de seus próprios interesses. O cidadão comum, especialmente aquele apartidário que já não suporta o que a política se tornou na atualidade, vê esse apodrecimento se refletir diretamente na justiça. E nesta terça-feira, 15 de setembro, o Brasil parou para assistir ao maior poder judiciário do país se engalfinhar em rede nacional.
Para muitos brasileiros, assim como para este que redige a matéria, a sensação ao final do dia foi a de lavar a alma. É um sentimento complexo e amargo, é verdade. Sabemos intimamente que, por mais que desse julgamento não aconteça nada, não saia uma punição rigorosa ou sequer um aprofundamento das ações envolvendo os ministros e o caso do banqueiro, ver a cúpula do Supremo Tribunal Federal (STF) se digladiando traz uma estranha e melancólica satisfação. O relatório da Polícia Federal expôs uma teia nebulosa que sugere a interligação entre diversos políticos, cúpulas de poder e o fantasma constante da corrupção, formando um dos maiores escândalos da atualidade que se tornou público.
No fundo, o brasileiro não acredita mais em uma conclusão justa. Não temos a ilusão de que o sistema vá punir o próprio sistema. Mas, de alguma maneira, ao ver o embate institucional transmitido ao vivo, debatido pela imprensa e discutido tanto por quem entende de leis quanto pelo cidadão mais simples nas ruas, o povo vai dormir nesta terça-feira sentindo que os intocáveis também sangram. Eles expuseram suas próprias fraturas, vaidades e contradições diante das câmeras.
Contudo, a realidade no dia seguinte é dura e fria. O Brasil parece estar jogado à própria sorte. Quando olhamos para o horizonte, não há uma luz no fim do túnel. Falta aquela esperança real de que surja alguém, ou alguma força governamental, capaz de promover uma verdadeira reordenação moral e estrutural no país. Estamos atravessando um momento político decisivo, a poucos dias das eleições, mas o sentimento que impera nas ruas é o de que tanto faz se o lado A ou o lado B ganhar. A estrutura está viciada, e o cidadão perdeu a fé no voto como ferramenta de purificação.
Nossa justiça reflete nossa política, e ambas parecem cada vez mais distantes do povo que deveriam servir. Lavamos a alma hoje com o espetáculo da discórdia entre os poderosos, rimos das ironias trocadas sob as togas, mas amanhã acordaremos novamente em um país onde a verdadeira esperança de mudança, infelizmente, secou.
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