
A história de Pedra Branca, no Sertão Central cearense, guarda em suas páginas um episódio que mescla tristeza ambiental e o rigor da natureza semiárida. No dia 2 de janeiro de 2018, a população da sede municipal despertou sob um cenário desolador: o Açude do Povo, outrora símbolo de fartura e principal fonte de abastecimento da cidade até a década de 1990, transformou-se em um cemitério a céu aberto para milhares de peixes, majoritariamente tilápias.

O fenômeno, embora impactante, tinha uma explicação técnica fundamentada na crise climática que assolava a região. A administração municipal da época diagnosticou que a estiagem prolongada reduziu o volume do reservatório a níveis críticos, resultando na queda drástica do oxigênio na água. O resultado foi uma mortandade em massa que, já nas primeiras horas daquela terça-feira, exalava um odor insuportável de putrefação, atingindo diversos bairros e afetando a rotina dos moradores.

A resposta institucional precisou ser ágil para evitar um problema de saúde pública. A Secretaria do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (Seduma) mobilizou uma operação de guerra: cerca de 40 operários, equipados com botas, luvas e máscaras para suportar o mau cheiro, trabalharam ininterruptamente por dois dias. Com o auxílio de uma retroescavadeira, toneladas de peixes mortos foram retiradas do leito seco do açude.

Aquele início de ano representava o ápice de um colapso hídrico severo. O açude Trapiá, que herdara a responsabilidade de abastecer a cidade, havia secado completamente ainda em 2016. Naquele janeiro de 2018, Pedra Branca sobrevivia graças a um esquema emergencial coordenado pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), que operava com poços profundos, chafarizes comunitários e o suporte constante de carros-pipa.
O alívio para a terra rachada só viria meses depois. Em 3 de abril de 2018, as chuvas finalmente devolveram a vida ao leito do Trapiá. Contudo, as imagens das tilápias às margens do Açude do Povo permanecem vivas na memória coletiva como um lembrete contundente da vulnerabilidade do sertanejo diante da seca e da urgência de políticas de convivência com o semiárido.

O Açude do Povo, segue aguardando um projeto de recuperação e despoluição que possa devolver dignidade não apenas ao velho açude, mas também à população que vive em seu entorno.
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